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Rede Globo: o ego inflado num olhar junguiano
“Um
modelo não nos diz que uma coisa seja assim ou assim; ele apenas
ilustra um determinado modo de observação.” (Jung,
2000)
De acordo com as
palavras de Jung, o modelo psíquico existe como uma maneira de nos
mostrar como pode ser o funcionamento da psique. Dessa forma, a
psique é constituída por elementos que a tornam dinâmica e mutável,
ou seja, é a nossa personalidade ou ego, mostra a forma como
pensamos, sentimos e nos comportamos, independente do caráter
consciente ou inconsciente em que estejamos.
A consciência, um
dos elementos formadores da psique, é designada como a parte mais
diretamente conhecida pelo individuo. É através da consciência que
existe a possibilidade de reconhecermos de maneira real e focal os
objetos do mundo. Já o inconsciente, consiste em tudo que é
supostamente desconhecido. Supostamente porque, se pelo fato de
estar na nossa psique, pode-se dizer que já é conhecido de uma
alguma forma, mas que não está ativado ou em funcionamento naquele
instante. Nas palavras de Jung, o inconsciente é,
“tudo o que eu sei,
mas em que não estou pensando no momento; tudo aquilo que um dia eu
estava consciente, mas de que atualmente estou esquecido; tudo o
que meus sentidos percebem, mas minha mente consciente não
considera; tudo o que sinto, penso, recordo, desejo e faço
involuntariamente e sem prestar atenção; todas as coisas futuras
que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão à
consciência.” (Jung, 2000)
O inconsciente
ainda é dividido em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. O
primeiro trata da parte inconsciente onde ficam localizadas todas
as experiências vividas pelo individuo, mas que são reprimidas,
rejeitadas pelo ego. O coletivo por sua vez, é diferente do
inconsciente pessoal por ser de natureza mais abrangente, fala-se
de grupos de indivíduos, onde se encontram os conteúdos mais
gerais, conhecidos por todos estes.
Além desses
elementos constitutivos da psique, existem outros que também fazem
parte desse complexo e imenso conjunto que constitui o homem. São
eles: os arquétipos, os símbolos e os complexos.
Os arquétipos,
conhecidos pela sua forma indefinível, trata-se de um material
“impalpável”, aquilo que não se pode ver ou tocar, mas
que existe na psique como algo que pode ser representado, segundo
Jung, como uma “fantasia subjetiva”. Essa fantasia
subjetiva se encontra no inconsciente coletivo e são criadas a
partir das vivências experimentadas pelos indivíduos, no decorrer
de sua vida.
Os símbolos na
perspectiva junguiana, são processos internos que buscam, através
de associações feitas para externalizar conteúdos, que estão em
processo de conscientização.
Os complexos são
para Jung, “agrupamentos de idéias de acento emocional no
inconsciente”. Esses agrupamentos são formados por
associações feitas a partir das representações que nos são
designadas.
É importante
lembrar que a psique funciona com todos esses elementos trabalhando
ao mesmo tempo e que a separação que é mostrada aqui é puramente
didática.
Através do modelo
psíquico é possível entender de maneira conjunta como se dá o
funcionamento da mente humana, de acordo com a teoria junguiana.
Pensando num modelo psíquico que possa representar de forma
dinâmica os conceitos supracitados, imaginamos um objeto conhecido
e utilizado pela maioria das pessoas e que atualmente vem sendo
alvo de crítica pela maneira como apresenta seus conteúdos: A
Televisão. Nesse sentido, utilizaremos à televisão de uma maneira
abrangente, incluindo não somente a sua parte física representada
também pelo aparelho mas incluindo, além disso, os efeitos que esta
causa no funcionamento da mente humana.
Se compreendermos
o aparelho da televisão como o corpo humano, podemos entender que a
parte física interna, onde estão localizados os fios, cabos, tubo
de imagens são os nossos órgãos (coração, fígado, rim, etc.). Porém
aqui, iremos metaforizar a psique a partir da idéia geral que a TV
representa para nós.
Através da
televisão, encontramos uma série de canais os quais se relacionam
como se fossem grupos de indivíduos de uma mesma cultura. Cada
canal de televisão compreende em sua estrutura diversos elementos
que proporcionam seu funcionamento. Destacaremos aqui um desses que
nos parece entre todos os outros, o mais desafiador.
Chamaremos a Rede
Globo de ego ou ego inflado, pelo fato deste canal apresentar-se,
aparentemente, como o centro de todas as decisões, no que tange ao
universo televisivo. Este será o nosso ego. É através dele que
podemos ver a ligação do mundo externo, caracterizado pelos
telespectadores, e do mundo interno, representado pelos programas
de TV, através do aparelho de TV que representará no nosso modelo
psíquico, a consciência, já que é este aparelho quem dar senso de
realidade às idéias criadas pelo ego. Os programas de TV são
responsáveis pelo funcionamento desse ego. São os programas, na
verdade quem decide se a Rede Globo é ou não é o centro das
atenções. Enquanto uns fazem parte dos melhores e mais assistidos
programas de TV do país quiçá do mundo, alguns outros são tidos
como os piores e nada criativos dentro da estrutura egóica da Rede
Globo. E mesmo, assim, continuam na sua programação semanal,
baixando os níveis de audiência da emissora. Fazendo uma analogia
aos complexos criados por Jung, estes programas pouco vistos, podem
ser descritos como os complexos inconscientes. No momento em que
esses programas (complexos) tornam-se tão fixos na programação
semanal, podemos concluir que este pretende ‘atuar como
um segundo “eu” em oposição ao “eu”
consciente’. Assim, a Rede Globo fica
sem saber o que fazer com o Complexo do Domingo a tarde (Domingão
do Faustão), por exemplo. Se o deixa na programação, a audiência
continua baixa e se substitui o apresentador, fica difícil de
encontrar outro com a mesma dinâmica para apresentar tanta coisa
inútil. Neste caso, podemos dizer que a Rede Globo sofreu uma
completa identificação (ocorre quando o
“eu” consciente é arrastado para o campo magnético do
seu complexo) com o seu complexo.
Os complexos têm
autonomia necessária para agir de forma saudável ou não. O que vai
garantir o caráter saudável ou não saudável dos complexos são os
seus elementos centrais, também chamados de arquétipos. Os
arquétipos são, na verdade “um padrão humano
universal”como se fosse, aquilo que se espera
quando se cria um programa de TV. Esse como se dos
arquétipos será baseado de acordo com as experiências vividas pela
Rede Globo (ego) em relação com as experiências de outros veículos
de comunicação, que representaria, neste caso, o inconsciente
coletivo. Aquilo que se espera de um programa de TV, por exemplo,
quando passa a ser representado através das reações do publico, é o
que chamamos mais acima de símbolos. que forma o centro dos
complexos. A maneira pela qual esses arquétipos foram criados, no
momento de construção dos complexos é o que vai designar a condição
perturbadora ou harmoniosa destes. Por exemplo, no momento que o
complexo do domingo a tarde foi sendo elaborado, este provavelmente
sofreu algum trauma, alguma repressão do ego (Rede Globo), dessa
forma, esses materiais rejeitados ficarão guardados no inconsciente
pessoal, que pode ser representado por algum setor da emissora onde
são guardados todos os programas gravados que não vão ao ar, ou
seja, à consciência. Os arquétipos designados como padrões
universais, podem ser representados neste modelo
psíquico
É válido lembrar
que os materiais rejeitados pelo ego anteriormente e armazenados no
seu inconsciente pessoal, podem a qualquer momento ser resgatados
para a consciência. Dessa forma, pode-se pensar que, se esses
materiais do Complexo do Domingo a tarde, que anteriormente foram
rejeitados pelo ego, forem acessados agora do inconsciente pessoal,
esse complexo pode torna-se consciente e assim, conviver
saudavelmente com o complexo do eu.
Plim
Plim!!
Gloria Ventapane (Avaliação II,
psicologia analítica, UNIFACS, 2009.1)
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